Renato Arcanjo e o Baile Charm de Madureira

No Festival Back2Black, na noite do Baile Charm de Madureira, encontramos um gaúcho que reside no Rio de Janeiro desde 1994, e que desde então frequenta os bailes de Charm na cidade. Hoje em dia, Renato Arcanjo é considerado um dos menestréis destes bailes. Dr. Caiaffo conversou com ele e você tem, abaixo, a transcrição deste papo. Aproveite!

“Uma das razões que fizeram eu fixar berço aqui foi a música. A black music, sem a menor sombra de dúvida. É uma coisa que eu já gostava lá em Porto Alegre e não tinha espaço. O máximo que eu escutava lá era um Earth, Wind & Fire, um Prince, e adorava quando tocava na rádio. Mas era o máximo que se tinha. Aí eu lembro que, num dia de chuva aqui no Rio, a gente não pode sair do Centro da cidade e eu fiquei ali pelo Centro, e aí fiquei perto do Bola Preta e comecei a escutar este tipo de música. Aí fui lá, subi, e era um baile de negrão, só tinha negrão, eu era o único branco que tinha lá. Todo mundo me olhando estranho pra caralho. Pô, mas era a minha música, não é? A música está associada à etnia da gente, eu tenho mistura como todos nós temos. Então, porra, eu me senti em casa mesmo sendo o único branco num baile que só tinha negrão. E aí foi o primeiro dia, foi o segundo dia, isso foi em 1995, foi o terceiro dia, o quarto dia, no quinto eu já estava dançando, me integrei com o pessoal, fiz amizade e, de lá pra cá, todas as quintas-feiras da minha vida, a não ser quando a minha mulher vai ganhar nenê, já temos quatro, eu frequento o baile que antes era no Bola Preta e agora é na Estudantina, e que tem as suas variações originárias lá no Vera Cruz, onde começou esta história toda, tem no Disco Voador, lá em Marechal Hermes, e no Viaduto Negrão de Lima, em Madureira. Então é um baile que está espalhado pela cidade, ele nasce na periferia, na região de Madureira, e vai se espalhando pelo Rio de Janeiro. E aqui a gente vê este movimento hoje, crescendo cada vez mais, é difícil porque a mídia é muito forte pra música branca, pra música comercial, pra música descartável, uma questão eminentemente financeira, mas a gente costuma dizer o seguinte: a gente aprendeu música, lá nos nossos primórdios, com os índios e os negros contando histórias para os seus filhos através da música, as mães embalando seus filhos e cantando, não é? Então a música tem uma origem muito importante, está associada à alma da gente. E pra quem gosta de música, gosta de black music, gosta de dança, é o espaço que a gente encontra pra manifestar aquilo que tem de mais forte dentro da gente.”

Dr. Caiaffo e Renato Arcanjo, no Back2Black Festival

“O baile de Charm é uma característica bem carioca. Ele nasce lá em Vera Cruz, nos bailes de Vera Cruz, e nasce com estes caras que estão tocando agora, que são o Corelo e o Fernandinho, que são dois DJs aficionados pela black music, e que lá nas décadas de 70 e 80 eles começam a tocar este tipo de música, influenciados por Earth, Wind & Fire, Marvin Gaye, esta turma toda. Aí começam estes bailes com a soul music. Começa a Motown, estas coisas todas, então começa um movimento aqui no Rio de Janeiro com estes dois DJs, Corelo e Fernandinho. E o nome baile de Charm vem pelo tipo de vestimenta. Eles buscam com este baile resgatar a cultura negra, resgatar o negro presente na sociedade através de uma das coisas que ele tem de bom, que é a música, o swing. Aí o que acontece? Com este resgate de autoestima do negro, então o próprio DJ influenciava pra ele se vestir bem, pra não estar maltrapilho, relaxado, de bermuda, ele tem que se vestir bem. Então, o que aconteceu? Nestes primeiros bailes de Charm, o pessoal começava a ir bem vestido, não tinha este nome, baile de Charm, mas – por conta desta autoestima resgatada –, inclusive na vestimenta, porque o pessoal ia de gravata, bacana, conforme os cantores americanos da década de 70 também, cantando de gravatinha, todo mundo bacana, então isso foi reproduzido aqui. Então o que aconteceu? Porra, o negrão tá charmoso… A vestimenta do pessoal e o estilo do pessoal dançar aquela black music com todo o swing, isso acabou dando o nome de baile de Charm, que tem a origem no R&B e na soul music basicamente. Ainda não tem aí, ainda é muito longe do hip-hop. Tanto é que o pessoal do Charm, se tu falas em hip-hop, eles ficam meio malucos, não gostam muito. Estão começando a aceitar mais só agora. Mas o baile de Charm tem este histórico, ele começa, ganha este nome através da vestimenta e do estilo de música pro negrão dançar, e acaba difundindo. Ele passa pelo Disco Voador, lá em Marechal Hermes, ele passa pelo Bola Preta, aí ele ganha uma força muito grande no viaduto Negrão de Lima. Por quê? Principalmente porque lá é um berço da música negra, é samba, é pagode, é chorinho, ou seja, é o Charm, é a soul music… aquela comunidade daquela região da Zona Oeste do Rio de Janeiro tem a música na veia, porque é uma comunidade basicamente de negros, entendeu? E cantam, e dançam, e tem sarau, e tem feijoada, tem pagode pra tudo quanto é canto. Quer dizer, a música está presente nas esquinas, quando estão fazendo um churrasquinho, entendeu? Então por isso que lá deu muito certo, porque lá o pessoal tem muita necessidade desta manifestação e tem isso no sangue. E ainda teve o apoio da Prefeitura, teve o apoio das rádios, teve o apoio dos DJs, porra… a entrada lá é R$1,00!! Ou seja, é uma entrada simbólica. Ele quer realmente integrar a comunidade pobre, trazer ela pra se divertir, pra brincar com aquilo que ela mais gosta. Por exemplo: aqui, o que é que está acontecendo hoje? O ingresso foi R$90,00 à guisa de black music, de integração, mas o que é que aconteceu? Foi todo ele patrocinado, não poderia ser mais barato pro pessoal de baixo poder aquisitivo ter uma maior presença? Isso aqui poderia estar mais cheio e com gente que realmente gosta, só que eles não puderam vir por conta disso, entendeu?”

 Baile Charm do Viaduto de Madureira (CULTNE – Acervo Digital de Cultura Negra)

“O interessante da black music é o seguinte: não tem como não fazer sucesso. Por exemplo, se a black music estivesse associada às gravadoras, às grandes gravadoras, ela arrebentava no mundo. Por quê? Porque ela é a única que tem uma característica 100% dançante. É impossível ouvir sem se mexer, entendeu? É só a música negra que tem isso. Não é porque o negro tem três bolas, não… é porque é a característica dele, porra! A música clássica não sai do negro, a música clássica é bonita pra caralho, mas sai de nórdicos. Então eu não vou querer que saia música clássica de negrão. Eu não vou querer também que saia de branco um swing destes que está tocando aqui, agora. Então é uma questão de respeito às características das etnias e das raças. Só que, como é coisa de negro, parece que é uma coisa menor, que o negro é uma coisa menor. Mas é todo mundo gente igual. A diferença que tem é das características, cada raça tem a sua habilidade. Negro tem a sua habilidade e a música negra tem isso, tem swing, é impossível ouvir sem dançar. E a gente nota o seguinte: praticamente todas as pessoas que estão no baile estão querendo dançar, elas olham quem está dançando e têm vontade de repetir, só que não conseguem. Não conseguem por quê? Porque isso não está num lugar comum do dia-a-dia. Se esta música estivesse num lugar comum do dia-a-dia do branco, ao invés de ser somente aquela música mecanizada, ele estaria sambando um pouco mais ao invés de ficar batendo pé e dando soco no ar. Ia ser uma coisa um pouco menos agressiva e um pouco mais swingada. Embora falem que tem agressividade por parte das comunidades negras, isso não, o negro é menos agressivo que o branco na sua origem. Então falta um pouco de black music pras pessoas sacudirem um pouquinho o rabo e deixar esta moral de cueca de lado, que é muito característica da nossa área lá… eu tive oportunidade de conhecer todos os municípios do Rio Grande do Sul, sem exceção, e eu me lembro uma vez, chegando de caminhão com o motorista da Caixa em algum lugar que eu não vou citar o nome, mas veio um monte de criança, ele era negro, e apontavam pra ele dizendo “negro, negro, negro”….então era uma novidade um negro naquela cidade, porque as pessoas pareciam não conhecer sequer um negro ao vivo. Nunca me esqueço porque o negrão não sabia onde se meter, porque era daqueles negros que alisava o cabelo, ou seja, também era um negro preconceituoso. Então todo este preconceito que está espalhado por tudo quanto é canto, eu tenho certeza absoluta, se a gente tivesse um pouco mais de proximidade, através da música, com a cultura negra, se expandisse isso, isso contribuiria, sem dúvida nenhuma, pra diminuir um pouquinho do preconceito existente.” 

“Eu, por exemplo, eu sou casado, tenho quatro filhos, por isso eu não posso estar circulando pelos bailes da cidade. Eu já fico feliz da vida pela minha mulher me liberar pra este baile. Então eu vou ao baile sozinho e ela sabe que eu vou pra dançar. Pra mim, dançar é um processo praticamente espiritual, ou seja, um culto. É uma relação energética maravilhosa. As coreografias [do Baile Charm de Madureira], elas nascem também da coreografia da black music, do Michael Jackson, desta turma toda. E aqui o que é que ocorre? Estas coreografias, por exemplo, tem muitas minhas, tem outras de outros amigos lá de Madureira, muitas do pessoal de Marechal Hermes, estas coreografias, elas vêm há anos. E tem uma turma nova que vai chegando, vai criando outras, eu mesmo já enchi o saco de criar, eu não crio mais, eu deixo os outros criarem. Então toda hora tem gente chegando nova, molecada nova chegando cheia de tesão e criando coreografias. O que eles fazem? Eles treinam em casa, um, dois, três, e levam pro baile, botam pro grupo, o grupo aceita e sai dançando, daqui a pouco isso vira febre na cidade toda. E é interessante! Eu, por exemplo, uma grande parte do pessoal que está aqui, a grande maioria é do baile do viaduto. Eu, particularmente, tenho ido pouco lá. Eu vou na Estudantina. Mas eu ponho as coreografias da Estudantina aqui e sai todo mundo dançando. É muito de característica. Sempre dá pra notar que tem uma ou outra liderança que se destaca pra puxar as coreografias, não é? Como eu já tenho bastante tempo de estrada, você sabe que o diabo é mais temido por ser velho do que por ser diabo propriamente dito, não é? Então a experiência conta pra algumas coisas. Então eu já sou respeitado como menestrel da dança pelo pessoal. Então a gente chega no baile, porque muito desta molecada aprendeu a dançar com a gente… então estas coreografias a gente põe e a maioria vem atrás porque já conhece. Quem não conhece vai fazendo um passinho e outro e vai pegando. Mas estas coreografias estão espalhadas pela cidade. Todos os bailes são praticamente as mesmas coreografias, e tem mais de quinhentas. O local de aprendizagem é no baile, é um troço muito bacana. Eu lembro quando eu comecei… tem que chegar humildezinho, ficar lá no fim. O cara que é malandro fica lá na frente puxando a coreografia… quem sabe mais fica na frente. O pessoal que fica lá na rabeira vai aprendendo, vai aprendendo, aí vai embora, vai sendo promovido, tem toda uma relação hierárquica nestes bailes, que a gente, às vezes, passa desapercebido, mas tem toda uma relação também hierárquica. Ou seja, quem dança há mais tempo, quem dança bem, tem uma empatia maior com o pessoal, esses acabam fazendo com que o pessoal repita suas coreografias. Tipo assim: o cara chegou, não dá pra se meter, deixa o cara puxar a porra do baile, entendeu? É mais ou menos assim.”

Fonte: Blog Black Paradise (http://maurycio.wordpress.com/)

“Tem um funk que diz assim: qual a diferença entre o Charm e o funk? Então tem um respeito muito grande. Tem tudo. O que ocorre? Pelo fato do pessoal do Charm ser mais cascudo, do Charm, ele nasce com o pessoal mais de meia idade e a molecada vem atrás. Então ele tem um respeito maior. As coreografias do Charm são mais difíceis que as do funk, muito mais. Então isso também faz com que o pessoal respeite. Ou seja, a questão da dança é esta questão dos duelos mesmo. Quem produz mais, toma conta, acabou. Então tem este respeito muito grande do pessoal do funk pelo pessoal do Charm. O funk é a música eletrônica do Rio de Janeiro. Não tem diferença nenhuma, entendeu? Tem um pouco de batida diferente, mas o próprio DJ Marlboro costuma dizer que o funk é a nossa música eletrônica. A mesma coisa, não tem diferença nenhuma. A diferença que tem entre as comunidades é que a comunidade do funk é muito grande, ela está presente em todos os morros e o Charm não. Charm não é a dança do moleque, Charm é a dança do pai do moleque. O moleque que participou do funk hoje, quando ele estiver lá com seus trinta, trinta e poucos, ele vai curtir o Charm. O filho dele, os filhos dele, ou seja, é uma progressão mais geométrica do que aritmética, os filhos dele, ou seja, a comunidade do funk é muito maior por causa da molecada. Tem muito mais moleque do que velho, entendeu? Então esta é a razão principal pra comunidade ser maior. Outra questão fundamental: o funk já está na mídia há muito tempo, na mídia particular, mas na mídia da comunidade, na mídia do gueto, na rádio lá da própria comunidade. O pessoal quer invadir mesmo, o pessoal aqui no Rio é muito atrevido, e isso é bacana, ele quer invadir, ele quer tomar conta, ele não aceita submissão. Isso, de uma forma geral, todo mundo até aceita, mas não é muito como o negro gaúcho, que aceita esta submissão diante do branco, entendeu? Então ele quer se manifestar… não só se manifestar, porra, ele quer ser ouvido também! Então ele vai pra guerra pra ser ouvido! Esta é uma diferença muito grande. Por isso que o funk consegue atingir um número maior, porque a comunidade é mais organizada, é molecada e é mais aguerrida. Por consequência, não dá pra comparar a força do idealismo de um adolescente com um coroa de trinta e poucos anos que tem que alimentar os seus filhos. Então esta é a diferença entre o Charm e o funk. “ 

“A nata é a Lapa, malandro. A Lapa é uma maravilha, é uma explosão de black music. Eu, no sábado passado, fui com a minha filha, que tem 13 anos, é a mais velha, e ela queria assistir RAP, então teve uma apresentação de seis bandas de RAP, Negra Li, o Marechal, que eu conheci lá, bom pra caralho, então eu fui lá com ela. Cheguei lá às onze hora e saí de lá às 5 da manhã. Uma maravilha pujante! Pujante! A Lapa, no início da Mem de Sá, próximo ali ao Asa Branca, tem pelo menos uns 10 bares, um do lado do outro, com todo o tipo de black music que tu podes imaginar. Ela começava no Asa Branca com o Charm, com uma música negra, com samba, agora tem muito forró, mas aí em seguida é disco music, é afro music, é samba, é pagode, é chorinho, é RAP, é hip-hop pesado, é Charm… e é interessante que este complexo está aumentando porque o Centro do Rio está enriquecendo. Por exemplo, a Estudantina fica na Praça Tiradentes, que fica integrada à Lapa pela Lavradio. E isso tá fechando! A Praça Tiradentes hoje está arrumada, tá limpa, e sempre foi um pólo cultural, tem teatros, tem centros culturais, tem música, então isso está integrando. A Lapa, de uma forma geral, indo até a Praça Tiradentes, aquilo ali vai ser o reduto da divergência musical, que tem por grande força a black music.”

 

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Back2Black Festival: altos e baixos, mas um saldo positivo

– Grandes patrocinadores, investimento pesado; saldo positivo, mas a sensação de que dá pra ser melhor –

por J. Oster

Palco montado, tudo lindo. Iluminação inspiradora a valorizar aquele local distinto, agradável, bem distribuído e repleto de atrações. Equipe VooDoo a postos. O primeiro passo foi desbravar o ambiente e registrar na “película” (que velho!). Superados os problemas de organização, produção e afins, vamos ao que interessa.

Ana Moura & Gilberto Gil

Partindo pras atrações, diria que o primeiro dia de festival, em resumo, poderia ser cortado. Sinceramente, motivo de decepção tanto pela desorganização quanto pelas atrações. Explico: dificuldades no credenciamento, tempo em demasia pra resolverem problemas, correrias de um lado a outro, informações desencontradas, atrasos no início das atividades, atrasos nos shows, e, ainda: certa incoerência na relação atrações-proposta do festival. Neste último quesito, ficou nítido um “ruído” entre o mote do evento e o perfil de alguns artistas ali presentes. É o caso do show inaugural no palco principal, da cantora portuguesa de fado Ana Moura, que apelou pra participação de Gilberto Gil, na tentativa de obter uma sintonia maior com a atmosfera proposta pelo evento. Não obteve sucesso, e o resultado foi um show finalizado com “Sítio do Pica-pau Amarelo”, além de muito fado por cerca de uma hora. Fica o registro da crítica aos realizadores por terem inserido a moça num festival com “Black” no nome; a cantora, por seu lado, apresentou muitos predicados que com propriedade deveriam ser demonstrados noutro local, noutro evento. A atração seguinte, a banda africana Tinariwen, não caiu no meu gosto, admito. Ao meu ver trouxe um som muito bacana, porém pouco empolgante, repleto de cânticos ritualísticos um tanto distantes do tom contagiante idealizado para um grande show num festival black, e até mesmo do afrobeat proposto pelo grupo. Macy Gray, que completou o primeiro dia, poderia ser incluída noutra noite, fazendo um festival de duas datas recheadas com nomes condizentes.

Oumou Sangaré

O segundo dia trouxe uma grata surpresa, compensando a ausência do grande astro Prince, que cancelou sua vinda às vésperas. A cantora malinesa Oumou Sangaré, pra mim o maior destaque do festival (junto com Aloe Blacc), impressionou pela energia e carisma. Em excelente apresentação, com grandes performances, sorrisos nos rostos de todos no palco, ela parece ter transmitido a energia dos orixás para o público, encantado e empolgado com o som tipicamente africano e muito bem executado por sua competente banda, repleta de instrumentos típicos. Na última música, Wele Wele (que denuncia o casamento forçado, prática ainda comum no Mali), chamou a participação da massa, que aderiu e curtiu por longos e dançantes minutos, até ovacioná-la ao encerramento. Já Chaka Khan, a segunda atração, pareceu cantar músicas de novela, embalando os momentos épicos de beijos em final de capítulo. Apresentou um estilo voltado em demasia ao disco dos anos 80, um tanto massante pra quem esperava algo mais groovado. Destaque para a interpretação de Tell Me Something Good, clássico da black music interpretado por diversos nomes de peso, como Maceo Parker.
A substituição de Prince por Jorge Ben pareceu aquela solução caseira emergencial e sem erro. A carta devia estar na manga desde o início, pra algum imprevisto. A quantidade de hits e toda sua história não podem causar outra reação no público que não o balançar incessante e frenético de corpos. Mas a impressão que fica, corroborada por muitos cariocas que já o assistiram em diversas oportunidades, é o modo automático na apresentação. Ele entra, não dá boa noite, sai tocando, cantando, fazendo todos pularem, conduz a banda (com maestria, diga-se). Por vezes parece irritado, de saco cheio, fazendo aquilo pela grana. Sem sorrisos; “salve apatia”. A participação do ex-baterista do Living Colour, Will Calhoun, deu um peso bacana e fortaleceu o show. Curiosa foi a relação do Jorge Ben com os técnicos do festival, um tanto quanto abobalhados no evento. Repetidas vezes ele deixou claro estar com problemas técnicos no monitor. Não tinha retorno; e sua voz realmente saía fraca. Os técnicos nada faziam diante dos apelos do músico, e pareciam mais preocupados em tirar fotos com o baterista convidado do que atender suas solicitações. Houve certa demora, mas a caixa foi trocada, junto com o microfone. Depois, ao estender uma guitarra, num intervalo entre músicas, prestes a cumprimentar o convidado e voltar pra reiniciar o show, o técnico a segurou… e ficou estancado no palco. Quando se deu conta, partiu pra buscar o outro instrumento da vez, errando na escolha e causando impaciência em Jorge Ben, que franzia a testa e dizia: “Não, não!”. Além, é claro, de um técnico que se meteu a tocar percussão, a convite do próprio Jorge Ben. Outra presença especial foi a de Caetano Veloso, causando furor na platéia.

O terceiro dia também reservava belos momentos. Com ASA, Aloe Blacc e Seu Jorge + Almaz, o time era forte. Destes, somente os últimos não corresponderam. Mais pelo show não ter encaixado do que por qualquer coisa, pois fizeram um grande trabalho. Os músicos, oriundos da lendária Nação Zumbi, estraçalham qualquer instrumento. Seu Jorge estava doidaço! O destaque ficou com Aloe Blacc, o estadunidense que veio dar um pouco do seu gingado pros brasucas, e mandou ver! Abrindo o show com a introdução de I Need a Dollar, descabaçou até a virgem mais pueril ali presente quando emendou Hey Brother, outro sucesso seu. E manteve o público hipnotizado até o fim. Interagia com o público, impressionava, surpreendia. Esbanjou elegância (como toda a banda), ginga, e mostrava estar gostando do que fazia. Não saberia dizer se era simpatia, mas sorria; todos sorriam. Foi um dos únicos a caminhar pelas instalações da Leopoldina nos demais dias. Também assistiu ao show de Jorge Ben, fazendo caras reprovadoras sabe-se lá de quê (talvez dos problemas técnicos). Mas matou a pau, essa é a verdade. Representou o black de alma, de soul, de raiz. O funk safado mesmo, com movimentos erotizados ao ponto, sem extravagâncias e com a malícia extraída de James Brown e Marvin Gaye. Dançava, e bem, em todas as canções. Comandou versões de clássicos do reggae e do pop, misturando estilos e dando sua cara. E deu certo. Muito certo. Assumiu a figura de estrela do festival, com toda a certeza. E com justiça.

Qinho & os Caras no palco secundário

Nos intervalos dos shows principais rolavam apresentações num palco secundário, um palco compacto ao lado das plataformas, para atrações locais. Seu fim não coincidia com o reinício de atividade no palco principal, o que dava um ar dinâmico ao evento, criando um movimento interessante de público entre idas e vindas, sem aquele fluxo mecânico de massas. Destaque para a banda Paraphernália, do Rio mesmo, com um groove maneiríssimo e contagiante, sendo comparada pelo Ronaldo Pereira (produtor do Gerson King Combo, um dos amigos por quem pechamos lá) à nossa Funkalister, dado o nível de excelência. Contaram ainda com a presença de B-Negão, encorpando ainda mais o show. Qinho & os Caras, apesar do péssimo nome, mandou bem (antes da versão de “Faz parte do meu show”, mais chorosa que a original) e chamou a participação de Jards Macalé, ovacionado pelo público.

Antes de tudo isso, a abertura de atividades dava-se com debates e conferências, no mesmo palco principal. No primeiro dia o foco foi “Democratização, não-violência e mídias sociais”, com participação via satélite de Wael Ghonim, um dos líderes da revolta popular que derrubou o ditador egípcio Hosni Mubarak. O segundo dia teve Fernando Gabeira mediando debate sobre Ecologia, que contou também com Marina Silva. O último dia contemplou o “Futuro das Comunidades”. Todos temas importantes, atuais e relacionados com a cultura negra e africana. Muito bacana e válida a iniciativa, mas a percepção é de que os debates seriam mais bem aproveitados noutro local, noutro momento.

Livros e discos no vagão

Os vagões também reservavam atividades bacanas, como lojas de discos, CD’s e livros, e um projeto de palco onde qualquer cidadão podia se inscrever pra cantar ou tocar algum instrumento. A idéia da Petrobrás teve massiva adesão, com boa banda de apoio, bombando em alguns momentos. Além disso havia o Palco Circo, a grande tenda armada para fazer a festa ao final das noites, com participações de renomados DJ’s, transitando por diversas linhas da black music, fechando um mapa interessante no festival.

Fica a alegria pela presença no festival, além dos abraços dados nos amigos encontrados lá (PC Capoeira, Ronaldo Pereira, Peixinho, entre outros), dos belos papos, e de poder conferir de pertinho o que anda rolando pelo país. Mas também a sugestão de um olhar mais vinculado à cultura negra e sua história. Convidar novos nomes, como Aloe Blacc, sim, mas nunca esquecer de quem começou tudo isso e ainda está em atividade. Nomes do calibre de Gerson King Combo, Tony Tornado ou o próprio George Clinton (que esteve em São Paulo em outro festival, o Black na Cena) tem de estar numa seleção de tal nível. Sharon Jones, que também se apresentou na capital paulista, em junho, seria estupendo. Stevie Wonder ou Jamiroquai (atrações do Rock In Rio, em setembro), também. Todos nomes possíveis pra um evento de tal grandeza em local tão inspirador e com patrocínios pesados, talvez até justificando um ingresso oneroso como foi o desse ano.

E dia 29 de setembro tem Stevie Wonder e Jamiroquai no Rock In Rio. Aguardem!

Abraços e até logo!

 

Back2Black Festival: ajudando a ativar a cena da música negra no Brasil

– Porém, com baixa presença da comunidade negra –

Por Dr. Caiaffo

Caiaffo e ASA

Sistemas de som de primeira linha, distribuídos nos palcos principal e secundário, bem como na lona de circo armada para receber os DJ’s, amplificou o que pretendia ser uma mostra contemporânea senão do melhor, pelo menos de uma parcela representativa do que vem sendo a produção musical negra no Brasil e no mundo. E realmente foi uma mostra absolutamente digna: tanto no palco principal quanto no palco secundário, tivemos a oportunidade de ver ao vivo novamente ou de conhecer algumas atrações bastante bem selecionadas pela curadoria do festival. Por ordem de preferência, destaco no palco principal. ASA – pronuncia-se “asha” – apresentou um show fantástico de soul music; extremamente carismática, com uma linda voz e uma banda competentíssima, a francesa – filha de nigerianos, que atualmente reside em Lagos/Nigéria, desfilou prioritariamente as composições do seu excelente segundo álbum, chamado Beautiful Imperfection. Falaremos mais sobre ela em nova postagem, pois foi uma das únicas entre os artistas principais que circulou fora do ambiente ultra-restrito reservado aos artistas do palco principal, e honrando a tradição de Fela Kuti, que considera uma das suas principais influências, concedeu-nos uma entrevista não somente sobre sua música, mas também sobre a política nigeriana e mundial. Em seguida, destaque para a excelente performance do new soulman Aloe Blacc, que quase colocou a Leopoldina abaixo com composições prioritariamente de seu novo álbum, Good Things. Também acompanhado de uma banda fantástica, o californiano provou ao vivo o porquê de ser considerado um dos principais nomes da música negra na atualidade, homenageou Bob Marley num reggae super grooveado e foi às lágrimas no bis, ao homenagear sua terra natal numa versão linda de California Dreamin’. Destaque para I Need a Dollar, cantada em uníssono pelo público presente. Do Mali, a diva Oumou Sangaré fez um show fantástico, misturando instrumentos elétricos com instrumentos tradicionais africanos, apresentando um repertório que flerta tanto com os afrobeats quanto com as canções e ritmos mais tribais e locais. Impressionante a sessão percussiva que, contando somente com um músico nos tambores, parecia encher a casa com uma batida contagiante. Mesmo caso dos também malineses do Tinariwen, banda de tuaregs do norte do Saara: um tocador de tambor, adornado por instrumentos harmônicos de corda, preencheu a estação com batidas contagiantes, numa pegada mais étnica do que propriamente grooveada. Destaque também para o show da Macy Gray, que mostrou porque é diva e admirada por muitos dos que curtem a música black: um show bem animado e com a melhor sonoridade, espalhafatoso no ponto certo e que botou geral pra dançar. Jorge Ben fez o que sabe fazer há anos e não há o que dizer do repertório: poucos são os músicos nacionais que conseguem encadear sucessos como ele consegue, mantendo um pique dançante e uma atmosfera festiva. Destaque, neste show, para a longa participação de Will Calhoun, baterista do Living Colour, que subiu no palco e deu uma contribuição impagável no swing da banda.

Chaka Khan

Duas das atrações principais decepcionaram um pouco: a diva Chaka Khan e Seu Jorge & Almaz. Chaka Khan, na minha opinião, foi prejudicada pelo volume relativamente baixo para um lugar tão grande, ainda mais porque desfilou um repertório clássico de disco music. Ela merecia um ambiente mais esfumaçado e um som no talo, como o gênero disco me parece solicitar. O show me pareceu sem groove, sem pegada, e o público permaneceu mais frio do que eu esperava. Seu Jorge & Almaz também: embora o disco seja fantástico, me parece ter um formato mais intimista, cheio de efeitos e detalhes. Não deu muito certo no formato festival, embora deva ser uma das melhores coisas a se ver em palcos pequenos e fechados, ou mesmo em teatros. A fadista portuguesa Ana Moura, que Gilberto Gil tentou salvar, foi um convite definitivamente equivocado.

Não vou me estender sobre as atrações do palco secundário, mas vale sugerir que todos procurem informações sobre os trabalhos da banda Tono, de Domenico Lancelotti e de Moreno Veloso. No geral, porém, foi um palco onde circularam, em diferentes bandas, uma mesma geração de músicos cariocas na minha opinião mais identificados com a música popular brasileira do que com a música black, e por isso provavelmente pouco representativo em se tratando do que está sendo produzido de música negra no Brasil, atualmente. Nomes como Criolo e Emicida, por exemplo, e mesmo o nosso gaúcho Tonho Crocco teriam feito uma presença bem mais marcante e significativa. Passaram por ali B-Negão e Jards Macalé, atrações que mereceriam mais destaque do que como meros convidados. Isso num país que ainda tem Gérson King Combo, Hyldon, Bebeto, Banda Black Rio, Funk como Le Gusta e tantos outros na ativa… e uma nova geração produzindo afrobeat da melhor qualidade.

Caiaffo e DJ Marlboro

A lona de circo abrigava as festas, que começavam tão logo o último show da noite terminava no palco principal. E o bicho pegou: Nepal junto com Pathy de Jesus, DJ Cia, DJ Marlboro e os DJs do Baile Charm do viaduto de Madureira literalmente tocaram fogo no circo, do soul ao funk carioca, passando pelo hip-hop e pela disco music, sempre com repertórios invejáveis e mixagens competentíssimas. Com a ajuda da cervejinha, destilamos muito suor junto com o povo que prestigiou a lona. Charles Gavin também fez uma selecta super competente de música preta brasileira, mas não animou muito por conta da presença ainda baixa de público quando fez seu set. Perdemos o segundo dia da lona porque fomos convidados por mestre Peixinho a estar no camarote de um dos patrocinadores do evento junto com PC Capoeira e a Velha Guarda do Soul, e a birita 100% liberada… desculpem, mas a gente também é filho de Deus. Aguardem que, depois destes dias na lona do circo, muita coisa boa pode cair pra Porto Alegre!

Fora isso, belos encontros: cruzamos com o pessoal da Abayomy Afrobeat Orchestra, da Stereo Maracanã, da Supergroove, com DJ’s da Soul, Baby, Soul!, da Makula e da Blax, com a Velha Guarda do Soul e outros tantos amigos e amigas, novos ou de datas. Conhecemos o pessoal do Baile Charm de Madureira e entrevistamos um de seus frequentadores mais antigos, verdadeira aula sobre o baile e o estilo no Rio. Bem bacana.

O festival tinha também uma dimensão mais cultural, e propôs debates no início da programação de todos os três dias. As discussões foram interessantes – considerações e análises sobre os conflitos no norte da África, formas de resistência na atualidade, mídias sociais, ecologia e tantos outros temas atuais foram abordados por nomes representativos da cultura nacional e internacional –, mas confesso que o ambiente era inadequado, a falta de tradução simultânea deve ter prejudicado muita gente, assim como o valor dos ingressos. Valeu a intenção, mas a sugestão é de que as discussões sejam ampliadas e realizadas em outro ambiente, gratuitamente, fora do horário reservado aos shows e às festas e com mais possibilidade de participação ativa do público.

A única, porém grande, crítica que faço ao festival diz respeito à baixíssima presença da comunidade negra, que é considerável não somente no Rio de Janeiro, mas também no Brasil. No geral, os negros estavam uniformizados, ou seja, a trabalho. Conversando com amigos e amigas da cidade, eles relataram um movimento grande de repúdio ao valor cobrado pelos ingressos, e acreditam que este foi o fator que marcou esta divisão social entre frequentadores do Back2Black e a comunidade negra local. Fica a sugestão: que tal operar valores mais baixos nos próximos, e assim tentar promover uma integração real, ou – alternativamente – promover ações e shows descentralizados pela grande área de subúrbios e periferias do Rio de Janeiro e de sua região metropolitana?

No geral, valeu muito. Um festival muito bacana que ajuda a ativar a cena da música negra no Brasil, com curadoria interessante, bem produzido, instrutivo e divertido. Creio que qualquer crítica venha no sentido de contribuir com a continuidade da idéia, e não de desqualificá-la total ou parcialmente. Espero poder voltar ao Rio de Janeiro no próximo, ano que vem, e que algumas das distorções que ficaram tão evidentes possam ser corrigidas para o bem do evento e pela integração real de todas as raças no entorno do contexto de produção cultural e política que envolve o problema da negritude no Brasil. E aconselho que vocês, nos limites do possível, venham com a gente!!!

Arrisco uma sugestão de atrações para palcos principal e secundário:

Palco principal:

(Dia 1) Saravah Soul, Seun Kuti & Egypt ’80 e Ebo Taylor.
(Dia 2) Racionais MC’s, M.I.A. e Jay Z.
(Dia 3) Gérson King Combo, Hyldon e Toni Tornado, Charles Bradley e Spanky Wilson.

Palco secundário:

(Dia 1) Abayomy Afrobeat Orchestra, Bixiga ’70 e Tonho Crocco & Partenon ’70.
(Dia 2) B Negão, Emicida e Criolo.
(Dia 3) Funkalister, Supergroove e Funk como Le Gusta (com Paula Lima).

De resto, sigo passando informações aos poucos pra vocês e, tão logo seja possível, o resultado das entrevistas que fizemos durante o evento. Acompanhe o blog da Equipe VooDoo, envie suas sugestões de pauta e também suas contribuições sobre o que a gente publica aqui através de nosso e-mail!!

Meu forte abraço.

 

VooDoo no Back2Black Festival (RJ)

Nos dias 26, 27 e 28 de agosto realizou-se, no Rio de Janeiro, a terceira edição do Back2Black, festival dedicado à música e à cultura negra. Junto com o BMW Jazz Festival, a noite black da Virada Cultural de São Paulo e o festival Black na Cena, formou o que parece ser a agenda de grandes eventos do gênero no Brasil neste ano de 2011. Ainda aguardamos as atrações de groove do Rock In Rio, no dia 29 de setembro, mas tendo prestigiado no todo ou em parte todos os demais, podemos dizer que foi um ano de luxo em terras brasileiras.

Grandes patrocinadores, grandes atrações, nomes de peso… Por outro lado, ingressos com valores bastante apimentados. O cenário: a antiga estação férrea Leopoldina, agora dedicada a eventos culturais de tal dimensão. E começamos por aí, a Leopoldina: dentre os inúmeros locais que a cidade do Rio de Janeiro dispõe para a realização de eventos deste porte, definitivamente a Leopoldina é um dos mais bacanas. O antigo prédio da estação, estendido no fundo através das antigas plataformas de embarque e desembarque, onde ainda hoje ficam estacionadas composições que já rodaram pelos inúmeros trilhos que ligavam a capital a municípios da região metropolitana, do Estado e do país, é um espetáculo singular. Os inúmeros eventos já realizados, e também as intervenções espontâneas nos trens, hoje em dia quase completamente grafitados, fazem com que a Leopoldina seja não somente um verdadeiro museu do transporte ferroviário carioca, mas uma grande mostra da arte de rua já produzida naquelas terras. Estivesse a estação mais bem conservada como patrimônio local e certamente ela poderia ser considerada como um dos lugares mais impressionantes para eventos do gênero no país. Fica a dica para os administradores e organizadores da cultura em solo nacional. A cenografia, composta em grande parte por intervenções d’Os Gêmeos, também merece destaque pelo cuidado e criatividade.

No todo, o festival – que também contemplou o dia 30, em São Paulo – foi muito bom. Afora problemas, sejam de ordem técnica ou de produção, além dos preços absurdos cobrados e da desistência surpresa e ainda sem explicação da maior atração, Prince, o saldo é positivo.

A VooDoo esteve lá, e Oster e Dr Caiaffo detalharão o evento aqui pro blog e também pra IpanemaFM (nossos eficientes emissores), no NBlog.

As fotos são do Rafa Rubim.