Obrigado por tudo, Pica das Galáxias

A Família VooDoo acordou nesse último sábado estupefata com uma notícia inaceitavelmente triste: faleceu um grande amigo, irmão, professor, mestre… uma lenda. PC Capoeira, a “Lenda que Dança”, parou de dançar neste plano e nos deixou, certamente indo ensinar passinhos nas pistas do céu.

Ainda não conseguimos entender. Se há algo a ser dito nessas horas, não sabemos. O que queremos – e devemos – é deixar nosso registro, a lembrança de um homem que marcou nossas vidas rapidamente, e cuja história aqui em Porto Alegre se confunde com a própria história da VooDoo, a qual ele ajudou a construir desde o início.

Antes da estreia da festa o Rafa fora a uma Soul, Baby, Soul! na Casa Rosa, no Rio, e se encantara com aquele negão regendo a pista de dança com suas fantasias e seu sorriso fácil, levando à pauta com Oster e Caiaffo. Sir Dema, grande parceiro e referência da soul music carioca, viabilizou a primeira vinda do mestre. Recomendações como “cuida do nosso menino de ouro, ele é único” nos fizeram ter a certeza de tratar-se de alguém especial. Em maio de 2010, na terceira edição da festa, íamos recebê-lo no Salgado Filho pela primeira vez. Lá o esperávamos e, pra nossa surpresa, ao avistarmos aquele sujeito alto e com roupas espalhafatosas, antes de qualquer reação ele nos olhou e, mesmo sem nos conhecer, veio falando, sorridente: “Família!”. Aquilo marcou. Assim começava uma linda trajetória que viria a fazer história nas pistas de dança de Porto Alegre. E em nossos corações.

 

Nessa primeira experiência, numa festa pra aproximadamente 30 pessoas, impressionou geral ao montar coreografias com quem nunca tinha visto, fazendo todos dançarem sincronizadamente, alternando filas e passos, deixando-nos arrepiados e boquiabertos, sem entender como conseguia aquilo… e extremamente felizes com algo tão bonito e divertido, no sentido mais puro da palavra. Taí… pureza. Mais simplicidade, humildade, gentileza… Talvez esses os predicados que o levaram a conquistar rapidamente todos que o conheciam por essas bandas. Desde então desfilou inúmeras fantasias divertidíssimas, tirando sarro de si mesmo, alegrando todo mundo. Um showman. E os sorrisos francos e brilhantes se proliferavam. E toda vinda sua era especial como um novo encontro, feliz como matar a saudade de um grande amigo. De um irmão. Ou de um pai.

Era o carisma em pessoa. Era o embaixador do soul. Deu oficinas de dança, multiplicando e cultivando amizades e admiradores. Quando a bonecada postava-se pelos cantos, avergonhada, ele ia lá pegar pela mão e levar pra pista. Chamava pro meio da roda, pra diversão. Todos, sem exceção. Ensinava a não ter medo, a dançar de qualquer maneira. A dançar e ser feliz. Carlinhos, praticamente um afilhado, virou Carlinhos Gentileza, ou só “Gentileza”, botando em prática a máxima de sua camiseta. Nessa, praticamente filha, ouviu as melhores palavras de incentivo e lições sobre as dificuldades da vida, e enfrentou com coragem uma lesão no quadril – sem poder dançar com o mestre – “pois tudo daria certo no final”. Jackson também integrou seu grupo de seguidores e parceiros na arte de botar fogo na pista. Roberta, Thiago, Mariana, Aline… Rubim, Oster, Caiaffo… Também levou pra pista Gê Powers, DJ Anderson, Kafu… Tonho Crocco, Trampo, Cikuta… Todo mundo, de todo tipo, de todas as cores, credos, preferências diversas, atividades distintas… em comum, todos admiradores incondicionais.

Jeremy, um dos patrões do Cabaret, chegou no meio duma VooDoo e falou, diante da massa regida pela “Lenda que Dança”: “Na casa temos festas lotadas sexta, sábado… seja qualquer dia, em nenhuma vejo as pessoas felizes como aqui”.

Na primeira VooDoo no Ocidente, diante da incredulidade do chefe da casa, Fiapo, que via toda a pista dançando sincronizadamente, PC participou do seguinte diálogo:

Fiapo: Que tá acontecendo lá embaixo?
PC: Ué, rapaziada tá dando umas pernadas…
Fiapo: Mas como?… Tu que tá fazendo isso?
PC: Eu não, eu tô aqui… Mas já já eu tô lá!
Fiapo: …
PC: Tááá ligaaado!!!

Assim, com seu jeito simples, conquistou Porto Alegre. Já conquistara o Rio, Minas… A China! Do mesmo jeito, carinhoso, conquistou uma ilha. A Ilha da Magia. Em janeiro Floripa se rendeu aos seus passos, na belíssima festa WhataFunk. Saiu de lá com mais uma filha, a Drika. E assim conquistaria quantos territórios lhe fossem apresentados. Assim conquistaria tantos filhos, afilhados, seguidores, irmãos, admiradores quantos estivessem pela frente. Assim sua família ia crescendo. E assim seu carinho, seus valores, iam se multiplicando.

 

 

Nos momentos de descanso (como assim descansar na companhia do PC?) queria ensaiar “aquele passinho que faltou” ou nos tirar do aconchego após uma refeição pra fazer uma coreografia. Dormia no chão; dizia que “dormir no colchão dava dor nas costas”. E não era brincadeira: botávamos colchão, ofertávamos cama, e ele dormia ao lado do colchão ou da cama… no chão. Mas também… dormia uma hora, uma hora e meia… e levantava pronto pra dançar.

Na churrascaria parecia uma criança em festa. Após comer picanha e costela, devorava, maravilhado, uma nova iguaria que descobriu com a gente: salsichão. Degustava sobremesas, melancias, frutas diversas… e voltava a comer aquele embutido saborosíssimo! Saboroso também era o pão com mortadela.

Talento incrível. Simpatia em pessoa. Ria de qualquer bobagem. Te dava conselhos de paizão. Contava histórias. Falava das dificuldades que teve na vida. E seguia no caminho do bem, distribuindo bondade. E ensinava, puxava pelo bracinho, e fazia de novo, e dava lições; e fazia tudo com o coração. Era quem tocava o zaraio nas pistas! Era o cara do “tááá ligaaado”! Era o PICA DAS GALÁXIAS!

Dá uma olhada na belíssima homenagem do Cultne ao mestre:

A vida colocou muitas barreiras em seu caminho. Combateu e venceu várias. Outras foram difíceis de enfrentar. Mas quando o soul tocava na pista da VooDoo, a alegria contagiava e prevaleciam a dança, o sorriso, a música. Se sentia em casa. Em família. Sua última passagem por Porto Alegre foi maravilhosa como sempre, iluminando a festa que fez história na Capital Gaúcha – a 2ª VooDoo nos Trilhos – e o show do BNegão & Seletores de Frequência, e os corações de todos que o cercavam.

 

As pistas das festas das quais participava nunca mais serão as mesmas. Mas seus passos continuarão dançando sincronizados sempre que a música soul ecoar nos alto-falantes. A nós cabe continuar acompanhando, mostrar o que aprendemos, seguindo no caminho do bem. E sua alma estará com a gente. Pois “A Lenda” continuará dançando. E não vai parar nunca.

Obrigado por tudo, mestre. Fique em paz.

Soul, música da alma, para dançar com a alma.”
R.I.P. PC Capoeira (16/02/1959 – 31/03/2012)

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