Back2Black Festival: altos e baixos, mas um saldo positivo

– Grandes patrocinadores, investimento pesado; saldo positivo, mas a sensação de que dá pra ser melhor –

por J. Oster

Palco montado, tudo lindo. Iluminação inspiradora a valorizar aquele local distinto, agradável, bem distribuído e repleto de atrações. Equipe VooDoo a postos. O primeiro passo foi desbravar o ambiente e registrar na “película” (que velho!). Superados os problemas de organização, produção e afins, vamos ao que interessa.

Ana Moura & Gilberto Gil

Partindo pras atrações, diria que o primeiro dia de festival, em resumo, poderia ser cortado. Sinceramente, motivo de decepção tanto pela desorganização quanto pelas atrações. Explico: dificuldades no credenciamento, tempo em demasia pra resolverem problemas, correrias de um lado a outro, informações desencontradas, atrasos no início das atividades, atrasos nos shows, e, ainda: certa incoerência na relação atrações-proposta do festival. Neste último quesito, ficou nítido um “ruído” entre o mote do evento e o perfil de alguns artistas ali presentes. É o caso do show inaugural no palco principal, da cantora portuguesa de fado Ana Moura, que apelou pra participação de Gilberto Gil, na tentativa de obter uma sintonia maior com a atmosfera proposta pelo evento. Não obteve sucesso, e o resultado foi um show finalizado com “Sítio do Pica-pau Amarelo”, além de muito fado por cerca de uma hora. Fica o registro da crítica aos realizadores por terem inserido a moça num festival com “Black” no nome; a cantora, por seu lado, apresentou muitos predicados que com propriedade deveriam ser demonstrados noutro local, noutro evento. A atração seguinte, a banda africana Tinariwen, não caiu no meu gosto, admito. Ao meu ver trouxe um som muito bacana, porém pouco empolgante, repleto de cânticos ritualísticos um tanto distantes do tom contagiante idealizado para um grande show num festival black, e até mesmo do afrobeat proposto pelo grupo. Macy Gray, que completou o primeiro dia, poderia ser incluída noutra noite, fazendo um festival de duas datas recheadas com nomes condizentes.

Oumou Sangaré

O segundo dia trouxe uma grata surpresa, compensando a ausência do grande astro Prince, que cancelou sua vinda às vésperas. A cantora malinesa Oumou Sangaré, pra mim o maior destaque do festival (junto com Aloe Blacc), impressionou pela energia e carisma. Em excelente apresentação, com grandes performances, sorrisos nos rostos de todos no palco, ela parece ter transmitido a energia dos orixás para o público, encantado e empolgado com o som tipicamente africano e muito bem executado por sua competente banda, repleta de instrumentos típicos. Na última música, Wele Wele (que denuncia o casamento forçado, prática ainda comum no Mali), chamou a participação da massa, que aderiu e curtiu por longos e dançantes minutos, até ovacioná-la ao encerramento. Já Chaka Khan, a segunda atração, pareceu cantar músicas de novela, embalando os momentos épicos de beijos em final de capítulo. Apresentou um estilo voltado em demasia ao disco dos anos 80, um tanto massante pra quem esperava algo mais groovado. Destaque para a interpretação de Tell Me Something Good, clássico da black music interpretado por diversos nomes de peso, como Maceo Parker.
A substituição de Prince por Jorge Ben pareceu aquela solução caseira emergencial e sem erro. A carta devia estar na manga desde o início, pra algum imprevisto. A quantidade de hits e toda sua história não podem causar outra reação no público que não o balançar incessante e frenético de corpos. Mas a impressão que fica, corroborada por muitos cariocas que já o assistiram em diversas oportunidades, é o modo automático na apresentação. Ele entra, não dá boa noite, sai tocando, cantando, fazendo todos pularem, conduz a banda (com maestria, diga-se). Por vezes parece irritado, de saco cheio, fazendo aquilo pela grana. Sem sorrisos; “salve apatia”. A participação do ex-baterista do Living Colour, Will Calhoun, deu um peso bacana e fortaleceu o show. Curiosa foi a relação do Jorge Ben com os técnicos do festival, um tanto quanto abobalhados no evento. Repetidas vezes ele deixou claro estar com problemas técnicos no monitor. Não tinha retorno; e sua voz realmente saía fraca. Os técnicos nada faziam diante dos apelos do músico, e pareciam mais preocupados em tirar fotos com o baterista convidado do que atender suas solicitações. Houve certa demora, mas a caixa foi trocada, junto com o microfone. Depois, ao estender uma guitarra, num intervalo entre músicas, prestes a cumprimentar o convidado e voltar pra reiniciar o show, o técnico a segurou… e ficou estancado no palco. Quando se deu conta, partiu pra buscar o outro instrumento da vez, errando na escolha e causando impaciência em Jorge Ben, que franzia a testa e dizia: “Não, não!”. Além, é claro, de um técnico que se meteu a tocar percussão, a convite do próprio Jorge Ben. Outra presença especial foi a de Caetano Veloso, causando furor na platéia.

O terceiro dia também reservava belos momentos. Com ASA, Aloe Blacc e Seu Jorge + Almaz, o time era forte. Destes, somente os últimos não corresponderam. Mais pelo show não ter encaixado do que por qualquer coisa, pois fizeram um grande trabalho. Os músicos, oriundos da lendária Nação Zumbi, estraçalham qualquer instrumento. Seu Jorge estava doidaço! O destaque ficou com Aloe Blacc, o estadunidense que veio dar um pouco do seu gingado pros brasucas, e mandou ver! Abrindo o show com a introdução de I Need a Dollar, descabaçou até a virgem mais pueril ali presente quando emendou Hey Brother, outro sucesso seu. E manteve o público hipnotizado até o fim. Interagia com o público, impressionava, surpreendia. Esbanjou elegância (como toda a banda), ginga, e mostrava estar gostando do que fazia. Não saberia dizer se era simpatia, mas sorria; todos sorriam. Foi um dos únicos a caminhar pelas instalações da Leopoldina nos demais dias. Também assistiu ao show de Jorge Ben, fazendo caras reprovadoras sabe-se lá de quê (talvez dos problemas técnicos). Mas matou a pau, essa é a verdade. Representou o black de alma, de soul, de raiz. O funk safado mesmo, com movimentos erotizados ao ponto, sem extravagâncias e com a malícia extraída de James Brown e Marvin Gaye. Dançava, e bem, em todas as canções. Comandou versões de clássicos do reggae e do pop, misturando estilos e dando sua cara. E deu certo. Muito certo. Assumiu a figura de estrela do festival, com toda a certeza. E com justiça.

Qinho & os Caras no palco secundário

Nos intervalos dos shows principais rolavam apresentações num palco secundário, um palco compacto ao lado das plataformas, para atrações locais. Seu fim não coincidia com o reinício de atividade no palco principal, o que dava um ar dinâmico ao evento, criando um movimento interessante de público entre idas e vindas, sem aquele fluxo mecânico de massas. Destaque para a banda Paraphernália, do Rio mesmo, com um groove maneiríssimo e contagiante, sendo comparada pelo Ronaldo Pereira (produtor do Gerson King Combo, um dos amigos por quem pechamos lá) à nossa Funkalister, dado o nível de excelência. Contaram ainda com a presença de B-Negão, encorpando ainda mais o show. Qinho & os Caras, apesar do péssimo nome, mandou bem (antes da versão de “Faz parte do meu show”, mais chorosa que a original) e chamou a participação de Jards Macalé, ovacionado pelo público.

Antes de tudo isso, a abertura de atividades dava-se com debates e conferências, no mesmo palco principal. No primeiro dia o foco foi “Democratização, não-violência e mídias sociais”, com participação via satélite de Wael Ghonim, um dos líderes da revolta popular que derrubou o ditador egípcio Hosni Mubarak. O segundo dia teve Fernando Gabeira mediando debate sobre Ecologia, que contou também com Marina Silva. O último dia contemplou o “Futuro das Comunidades”. Todos temas importantes, atuais e relacionados com a cultura negra e africana. Muito bacana e válida a iniciativa, mas a percepção é de que os debates seriam mais bem aproveitados noutro local, noutro momento.

Livros e discos no vagão

Os vagões também reservavam atividades bacanas, como lojas de discos, CD’s e livros, e um projeto de palco onde qualquer cidadão podia se inscrever pra cantar ou tocar algum instrumento. A idéia da Petrobrás teve massiva adesão, com boa banda de apoio, bombando em alguns momentos. Além disso havia o Palco Circo, a grande tenda armada para fazer a festa ao final das noites, com participações de renomados DJ’s, transitando por diversas linhas da black music, fechando um mapa interessante no festival.

Fica a alegria pela presença no festival, além dos abraços dados nos amigos encontrados lá (PC Capoeira, Ronaldo Pereira, Peixinho, entre outros), dos belos papos, e de poder conferir de pertinho o que anda rolando pelo país. Mas também a sugestão de um olhar mais vinculado à cultura negra e sua história. Convidar novos nomes, como Aloe Blacc, sim, mas nunca esquecer de quem começou tudo isso e ainda está em atividade. Nomes do calibre de Gerson King Combo, Tony Tornado ou o próprio George Clinton (que esteve em São Paulo em outro festival, o Black na Cena) tem de estar numa seleção de tal nível. Sharon Jones, que também se apresentou na capital paulista, em junho, seria estupendo. Stevie Wonder ou Jamiroquai (atrações do Rock In Rio, em setembro), também. Todos nomes possíveis pra um evento de tal grandeza em local tão inspirador e com patrocínios pesados, talvez até justificando um ingresso oneroso como foi o desse ano.

E dia 29 de setembro tem Stevie Wonder e Jamiroquai no Rock In Rio. Aguardem!

Abraços e até logo!

 

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2 Comentários

  1. Chaka cantando repertório disco, de final de novela?

    Puro Soul, baby!

    Tirando as mais comerciais, tipo I Feel For You, Ain’t Nobody e I’m Every Woman ela arrasou nas tão não conhecidas aqui. Cantou Funkin’ for Jamaica, Whatcha Gonna do For Me, Until You Come Back To Me da grande Aretha Franklin, Stay, My Funny Valentine, acabou com a casa em Thorugh The Fire e dessas de final de novela a que mais se aplica era Sweet Thing, mas com a pegada e com a voz de uma grande diva como ela, tudo fica especial. A galera gritou o show todo, parece q não estávamos no mesmo lugar, mas é aquilo gosto é gosto… Sei q eu e meus amigos estamos extremamente gratos até hoje por poder vê-la naquele dia! Foi cantando até o carro kkkkkkkkkkkkkkkkk!!!! E desculpa a boca, pqp que voz!

  2. hehehe, claro, querida, gosto é gosto. nem quis dizer que foi todo o show assim, mas de maneira geral não me agradou, mais pelo estilo mesmo. mas foi, sim, uma performance enérgica, e sim, com uma voz poderosa. valeu pelo comentário! bjs!


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