Back2Black Festival: ajudando a ativar a cena da música negra no Brasil

– Porém, com baixa presença da comunidade negra –

Por Dr. Caiaffo

Caiaffo e ASA

Sistemas de som de primeira linha, distribuídos nos palcos principal e secundário, bem como na lona de circo armada para receber os DJ’s, amplificou o que pretendia ser uma mostra contemporânea senão do melhor, pelo menos de uma parcela representativa do que vem sendo a produção musical negra no Brasil e no mundo. E realmente foi uma mostra absolutamente digna: tanto no palco principal quanto no palco secundário, tivemos a oportunidade de ver ao vivo novamente ou de conhecer algumas atrações bastante bem selecionadas pela curadoria do festival. Por ordem de preferência, destaco no palco principal. ASA – pronuncia-se “asha” – apresentou um show fantástico de soul music; extremamente carismática, com uma linda voz e uma banda competentíssima, a francesa – filha de nigerianos, que atualmente reside em Lagos/Nigéria, desfilou prioritariamente as composições do seu excelente segundo álbum, chamado Beautiful Imperfection. Falaremos mais sobre ela em nova postagem, pois foi uma das únicas entre os artistas principais que circulou fora do ambiente ultra-restrito reservado aos artistas do palco principal, e honrando a tradição de Fela Kuti, que considera uma das suas principais influências, concedeu-nos uma entrevista não somente sobre sua música, mas também sobre a política nigeriana e mundial. Em seguida, destaque para a excelente performance do new soulman Aloe Blacc, que quase colocou a Leopoldina abaixo com composições prioritariamente de seu novo álbum, Good Things. Também acompanhado de uma banda fantástica, o californiano provou ao vivo o porquê de ser considerado um dos principais nomes da música negra na atualidade, homenageou Bob Marley num reggae super grooveado e foi às lágrimas no bis, ao homenagear sua terra natal numa versão linda de California Dreamin’. Destaque para I Need a Dollar, cantada em uníssono pelo público presente. Do Mali, a diva Oumou Sangaré fez um show fantástico, misturando instrumentos elétricos com instrumentos tradicionais africanos, apresentando um repertório que flerta tanto com os afrobeats quanto com as canções e ritmos mais tribais e locais. Impressionante a sessão percussiva que, contando somente com um músico nos tambores, parecia encher a casa com uma batida contagiante. Mesmo caso dos também malineses do Tinariwen, banda de tuaregs do norte do Saara: um tocador de tambor, adornado por instrumentos harmônicos de corda, preencheu a estação com batidas contagiantes, numa pegada mais étnica do que propriamente grooveada. Destaque também para o show da Macy Gray, que mostrou porque é diva e admirada por muitos dos que curtem a música black: um show bem animado e com a melhor sonoridade, espalhafatoso no ponto certo e que botou geral pra dançar. Jorge Ben fez o que sabe fazer há anos e não há o que dizer do repertório: poucos são os músicos nacionais que conseguem encadear sucessos como ele consegue, mantendo um pique dançante e uma atmosfera festiva. Destaque, neste show, para a longa participação de Will Calhoun, baterista do Living Colour, que subiu no palco e deu uma contribuição impagável no swing da banda.

Chaka Khan

Duas das atrações principais decepcionaram um pouco: a diva Chaka Khan e Seu Jorge & Almaz. Chaka Khan, na minha opinião, foi prejudicada pelo volume relativamente baixo para um lugar tão grande, ainda mais porque desfilou um repertório clássico de disco music. Ela merecia um ambiente mais esfumaçado e um som no talo, como o gênero disco me parece solicitar. O show me pareceu sem groove, sem pegada, e o público permaneceu mais frio do que eu esperava. Seu Jorge & Almaz também: embora o disco seja fantástico, me parece ter um formato mais intimista, cheio de efeitos e detalhes. Não deu muito certo no formato festival, embora deva ser uma das melhores coisas a se ver em palcos pequenos e fechados, ou mesmo em teatros. A fadista portuguesa Ana Moura, que Gilberto Gil tentou salvar, foi um convite definitivamente equivocado.

Não vou me estender sobre as atrações do palco secundário, mas vale sugerir que todos procurem informações sobre os trabalhos da banda Tono, de Domenico Lancelotti e de Moreno Veloso. No geral, porém, foi um palco onde circularam, em diferentes bandas, uma mesma geração de músicos cariocas na minha opinião mais identificados com a música popular brasileira do que com a música black, e por isso provavelmente pouco representativo em se tratando do que está sendo produzido de música negra no Brasil, atualmente. Nomes como Criolo e Emicida, por exemplo, e mesmo o nosso gaúcho Tonho Crocco teriam feito uma presença bem mais marcante e significativa. Passaram por ali B-Negão e Jards Macalé, atrações que mereceriam mais destaque do que como meros convidados. Isso num país que ainda tem Gérson King Combo, Hyldon, Bebeto, Banda Black Rio, Funk como Le Gusta e tantos outros na ativa… e uma nova geração produzindo afrobeat da melhor qualidade.

Caiaffo e DJ Marlboro

A lona de circo abrigava as festas, que começavam tão logo o último show da noite terminava no palco principal. E o bicho pegou: Nepal junto com Pathy de Jesus, DJ Cia, DJ Marlboro e os DJs do Baile Charm do viaduto de Madureira literalmente tocaram fogo no circo, do soul ao funk carioca, passando pelo hip-hop e pela disco music, sempre com repertórios invejáveis e mixagens competentíssimas. Com a ajuda da cervejinha, destilamos muito suor junto com o povo que prestigiou a lona. Charles Gavin também fez uma selecta super competente de música preta brasileira, mas não animou muito por conta da presença ainda baixa de público quando fez seu set. Perdemos o segundo dia da lona porque fomos convidados por mestre Peixinho a estar no camarote de um dos patrocinadores do evento junto com PC Capoeira e a Velha Guarda do Soul, e a birita 100% liberada… desculpem, mas a gente também é filho de Deus. Aguardem que, depois destes dias na lona do circo, muita coisa boa pode cair pra Porto Alegre!

Fora isso, belos encontros: cruzamos com o pessoal da Abayomy Afrobeat Orchestra, da Stereo Maracanã, da Supergroove, com DJ’s da Soul, Baby, Soul!, da Makula e da Blax, com a Velha Guarda do Soul e outros tantos amigos e amigas, novos ou de datas. Conhecemos o pessoal do Baile Charm de Madureira e entrevistamos um de seus frequentadores mais antigos, verdadeira aula sobre o baile e o estilo no Rio. Bem bacana.

O festival tinha também uma dimensão mais cultural, e propôs debates no início da programação de todos os três dias. As discussões foram interessantes – considerações e análises sobre os conflitos no norte da África, formas de resistência na atualidade, mídias sociais, ecologia e tantos outros temas atuais foram abordados por nomes representativos da cultura nacional e internacional –, mas confesso que o ambiente era inadequado, a falta de tradução simultânea deve ter prejudicado muita gente, assim como o valor dos ingressos. Valeu a intenção, mas a sugestão é de que as discussões sejam ampliadas e realizadas em outro ambiente, gratuitamente, fora do horário reservado aos shows e às festas e com mais possibilidade de participação ativa do público.

A única, porém grande, crítica que faço ao festival diz respeito à baixíssima presença da comunidade negra, que é considerável não somente no Rio de Janeiro, mas também no Brasil. No geral, os negros estavam uniformizados, ou seja, a trabalho. Conversando com amigos e amigas da cidade, eles relataram um movimento grande de repúdio ao valor cobrado pelos ingressos, e acreditam que este foi o fator que marcou esta divisão social entre frequentadores do Back2Black e a comunidade negra local. Fica a sugestão: que tal operar valores mais baixos nos próximos, e assim tentar promover uma integração real, ou – alternativamente – promover ações e shows descentralizados pela grande área de subúrbios e periferias do Rio de Janeiro e de sua região metropolitana?

No geral, valeu muito. Um festival muito bacana que ajuda a ativar a cena da música negra no Brasil, com curadoria interessante, bem produzido, instrutivo e divertido. Creio que qualquer crítica venha no sentido de contribuir com a continuidade da idéia, e não de desqualificá-la total ou parcialmente. Espero poder voltar ao Rio de Janeiro no próximo, ano que vem, e que algumas das distorções que ficaram tão evidentes possam ser corrigidas para o bem do evento e pela integração real de todas as raças no entorno do contexto de produção cultural e política que envolve o problema da negritude no Brasil. E aconselho que vocês, nos limites do possível, venham com a gente!!!

Arrisco uma sugestão de atrações para palcos principal e secundário:

Palco principal:

(Dia 1) Saravah Soul, Seun Kuti & Egypt ’80 e Ebo Taylor.
(Dia 2) Racionais MC’s, M.I.A. e Jay Z.
(Dia 3) Gérson King Combo, Hyldon e Toni Tornado, Charles Bradley e Spanky Wilson.

Palco secundário:

(Dia 1) Abayomy Afrobeat Orchestra, Bixiga ’70 e Tonho Crocco & Partenon ’70.
(Dia 2) B Negão, Emicida e Criolo.
(Dia 3) Funkalister, Supergroove e Funk como Le Gusta (com Paula Lima).

De resto, sigo passando informações aos poucos pra vocês e, tão logo seja possível, o resultado das entrevistas que fizemos durante o evento. Acompanhe o blog da Equipe VooDoo, envie suas sugestões de pauta e também suas contribuições sobre o que a gente publica aqui através de nosso e-mail!!

Meu forte abraço.

 

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