O Bonde VooDoo Farroupilha e um setembro alucinante!

O feriado Farroupilha fez a redenção amanhecer sob uma chuva que servia de despedida a um inverno rigoroso, limpando o cenário pra receber a nova estação. E, do outro lado da rua, na lendária esquina da João Telles com a Osvaldo, o Bonde VooDoo encerrava um setembro alucinante com mais uma festa incrível na estação Ocidente. E havia groove pra ir até 8h, 9h da manhã, com a chuva que fosse, mas temos que ser mais fortes que o relógio, nessas horas…

Seis da manhã e uma galera em volta da Lenda que Dança, fazendo passos e enlouquecendo. Foi assim a noite toda, com casa cheia, muita gente bonita e bacana, comoção geral e culto ao funk e ao soul. PC comandou uma noite incrível, revivendo os grandes bailes black dos 70’s, deixando estupefato quem não o conhecia. O residente Oster e o convidado e amigo Sassá botaram uma sonzera interminável, alucinando o público, sem tempo pra respirar! Uma pedrada atrás da outra, e mais uma festa VooDoo inesquecível, agora sem a preocupação com o despertar do descanso necessário, levando pro leito uma deliciosa chuvinha como prêmio. Enfim, foi lindo! Confere as fotos do Peter Krause no nosso Flickr.

Uma noite perfeita! Plena pra quem lá se enfurnou desde cedo. Compensadora pra quem esperou um tempo demasiado na fila. De ouro pra quem ficou até os derradeiros minutos. No Palco Ox, nossos irmãos da HOT quebraram no hip hop old school, abrilhantando a noite do outro lado do bar, pra não deixar por menos. Os ares da nova estação tornaram a noite linda, ignorando a chuva. Após o início de mês na espetacular Noite VooDoo com Funk Como Le Gusta, passando por um inesquecível Ritual Radioativo com Fredi Chernobyl, o incrível Bonde VooDoo Farroupilha veio fechar um setembro maravilhoso e alucinante! Isso sem contabilizar os shows de Stevie Wonder e Jamiroquai no Rock In Rio, dia 29. Valeu, setembro! Viva a primavera!

Bonecada, agradecemos novamente a alegria, a parceria, as presenças de amigos e amigas especiais, e ficamos extremamente felizes pela diversão sincera como resultado de tudo. Já informamos a próxima parada do Bonde VooDoo no Ocidente: é dia 01/11. Uma terça-feira, véspera de feriado, e aqui o recado infame: só não vai quem já morreu!

Mas, antes, tem o tradicionalíssimo Ritual VooDoo na domingueira do Cabaret, dia 09/10. Tradicionalíssimo e especialíssimo: é o nosso especial Fela Kuti com live act de grandes músicos (reeditando o Ritual ABSURDO do ano passado – quem lembra?), introduzindo as também tradicionais comemorações globais de outubro do FELA DAY, que ocorrerão no RS pela primeira vez na Noite VooDoo com Abayomy Afrobeat Orquestra, banda carioca, no Bar Opinião. É muita coisa, bonecada… então vamos por partes, cuidando sempre a Agenda VooDoo. 😉

Força e muita energia, pois o groove não tem fim!

 

Bonde VooDoo no Ocidente [19/09, segunda, véspera de feriado]

Depois que o funk le gustou e que usinamos radiatividade, o Bonde VooDoo ataca de novo em setembro: a blitz será feita novamente na esquina da João Telles com a Osvaldo Aranha e, entrando Ocidente adentro, vamos nos preparar como poucos para a aurora de uma tão aguardada primavera. E novidade: com duas pistas.

Depois da meia noite, quando mergulhados no dia precursor da liberdade, mostraremos valor e constância no farto e generoso groove, e a casa vai oferecer sonzeira em dobro pra você escolher em qual bar vai querer trocar a fichinha.

Na pista VooDoo, no Ocidente, com som do residente Oster e os convidados da vez, nossos velhos conhecidos Cristiano “Caboclo” Sassá e PC Capoeira. Sejam bem-vindos novamente: grooves cabreiros para a energia da Velha Guarda dos bailes black cariocas voltar na pista!!!

Pode também trocar a fichinha no Ox, onde a equipe VooDoo tem o prazer de receber a HOT, festa irmã. Os residentes Dj Anderson, Buiú e Maestro tocam mil graus em hip-hop dançante e pedrarias funk.

Verdadeiramente, esquentou!

Ainda bem que depois vem feriado e todas as pernas podem ficar pra cima.

Siga nosso velho conselho: venha com sapatos confortáveis. E siga toda vida.

 

SERVIÇO

Bonde VooDoo no Ocidente
residente: Oster
Convidado nos toca discos: Cristiano “Caboclo” Sassá
Convidado na pista: PC Capoeira, “A Lenda que Dança” (RJ)
Quando: 19/09, segunda, véspera de feriado, 23h
Local: Ocidente, João Telles esquina Osvaldo Aranha
Quanto: $25 na hora$20 até 1h com nome na lista
(pelo e-mail festavoodoo@gmail.com ou no evento no Facebook)

Pista Ox: Festa HOT (Hip-hop old school 70’s, 80’s & 90’s)
nos toca-discos: DJ Anderson, Buiú e Maestro

 : : Os 100 primeiros pagantes ganham uma cerveja de cortesia! Cheguem cedo!!! : :

 

A arte desta edição foi obra do Mateus Grimm, de Porto Alegre.
Mateus Grimm tem o poder de transportar elefantes voadores e baleias multicoloridas, entre outras criaturas, direto de sua cabeça para a parede via traços contínuos de spray, com uma técnica que impressiona leigos e entendidos em arte de rua. Com raízes no graffiti e skate, Grimm foi o primeiro artista a expor na galeria Adesivo, na capital gaúcha, em dezembro de 2003, e voltou a expor em 2005 com o coletivo Doentes Pelas Cores. Na cidade, também participou de exposições no M.A.C, do livro Xirugravura lançado pela Choque Cultural, da exposição +Apto no Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS e foi um dos três gaúchos convidados por OSGEMEOS para pintar o Trensurb. Em 2008 se destacou na mostra de cultura urbana e arte contemporânea TRANSFER, no Santander Cultural, onde também colaborou como arquiteto, junto ao coletivo NOH, do qual faz parte. Em 2010, em São Paulo, contribuiu também para 2ª mostra TRANSFER, e da Exposição Destroy and Create.Seu trabalhos comerciais também carregam o estilo expressivo pelo qual é conhecido. Alguns exemplos são suas ilustrações transformadas em estampa de tênis para a Converse All Star e a direção de arte da marca Naipe Skateboards. Ainda na ilustração e publicidade, ele também integra o time de artistas da Möve. Mateus Grimm é sócio-fundador do escritório de arquitetura e coletivo de artistas UnidadeCriação e, como artista plástico, é representado pelo noz.art.

links:
http://www.flickr.com/photos/mateusgrimm/
http://unidade-criacao.blogspot.com/

 

Domingo explosivo!

Era um 11 de setembro diferente. “Comemorava-se” (?) os 10 anos do maior ataque terrorista da história, que pulverizou as famosas torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Mas desta vez, bonecada, a bomba foi em Porto Alegre. E no nosso inferninho preferido. Todas as energias, nucleares e não-nucleares, convergiram à Avenida Independência número 590: o DJ Chernobyl botou abaixo o Cabaret!

A VooDoo de setembro foi explosiva! Fredi Chernobyl assumiu o som e mandou não pedradas, mas GRANADAS. Plantou minas em cada canto da casa, estrategicamente. Detonou bombas de efeito moral, também; a emoção foi geral! Teve participação dos de casa Mause & Anderson (aniversariante da semana) e tradicional “jam” na discotecagem com o residente Oster. Dá um conferes nas fotos do Peter Krause que traduzem toda a potência desse ambiente de força e luz no nosso álbum do Flickr.

Foi uma noite bombástica! E diferente, como todas! Pois a única coisa a se repetir em uma Festa VooDoo é o ineditismo de cada edição. A catarse é sempre nova, distinta, e guarda um cantinho só seu em nossas memórias. Foi mais um Ritual inesquecível! E disso todos os participantes têm certeza, pois saíram de lá ANIQUILADOS por um tiroteio incessante e implacável de puro funk à queima-roupa!

DJ Chernobyl fez VooDoo no Cabaret! E agora parte com essa marca pra outras batalhas, agora em campos europeus. Que no Velho Mundo se reedite tal alegria, e o sucesso na missão estará garantido!

A família VooDoo agradece a todos! Valeu!

E te recompõe rápido: semana que vem já tem mais! Agora em solo Ocidental! Imperdível!

Simbora que o groove não para!

 

Back2Black Festival: altos e baixos, mas um saldo positivo

– Grandes patrocinadores, investimento pesado; saldo positivo, mas a sensação de que dá pra ser melhor –

por J. Oster

Palco montado, tudo lindo. Iluminação inspiradora a valorizar aquele local distinto, agradável, bem distribuído e repleto de atrações. Equipe VooDoo a postos. O primeiro passo foi desbravar o ambiente e registrar na “película” (que velho!). Superados os problemas de organização, produção e afins, vamos ao que interessa.

Ana Moura & Gilberto Gil

Partindo pras atrações, diria que o primeiro dia de festival, em resumo, poderia ser cortado. Sinceramente, motivo de decepção tanto pela desorganização quanto pelas atrações. Explico: dificuldades no credenciamento, tempo em demasia pra resolverem problemas, correrias de um lado a outro, informações desencontradas, atrasos no início das atividades, atrasos nos shows, e, ainda: certa incoerência na relação atrações-proposta do festival. Neste último quesito, ficou nítido um “ruído” entre o mote do evento e o perfil de alguns artistas ali presentes. É o caso do show inaugural no palco principal, da cantora portuguesa de fado Ana Moura, que apelou pra participação de Gilberto Gil, na tentativa de obter uma sintonia maior com a atmosfera proposta pelo evento. Não obteve sucesso, e o resultado foi um show finalizado com “Sítio do Pica-pau Amarelo”, além de muito fado por cerca de uma hora. Fica o registro da crítica aos realizadores por terem inserido a moça num festival com “Black” no nome; a cantora, por seu lado, apresentou muitos predicados que com propriedade deveriam ser demonstrados noutro local, noutro evento. A atração seguinte, a banda africana Tinariwen, não caiu no meu gosto, admito. Ao meu ver trouxe um som muito bacana, porém pouco empolgante, repleto de cânticos ritualísticos um tanto distantes do tom contagiante idealizado para um grande show num festival black, e até mesmo do afrobeat proposto pelo grupo. Macy Gray, que completou o primeiro dia, poderia ser incluída noutra noite, fazendo um festival de duas datas recheadas com nomes condizentes.

Oumou Sangaré

O segundo dia trouxe uma grata surpresa, compensando a ausência do grande astro Prince, que cancelou sua vinda às vésperas. A cantora malinesa Oumou Sangaré, pra mim o maior destaque do festival (junto com Aloe Blacc), impressionou pela energia e carisma. Em excelente apresentação, com grandes performances, sorrisos nos rostos de todos no palco, ela parece ter transmitido a energia dos orixás para o público, encantado e empolgado com o som tipicamente africano e muito bem executado por sua competente banda, repleta de instrumentos típicos. Na última música, Wele Wele (que denuncia o casamento forçado, prática ainda comum no Mali), chamou a participação da massa, que aderiu e curtiu por longos e dançantes minutos, até ovacioná-la ao encerramento. Já Chaka Khan, a segunda atração, pareceu cantar músicas de novela, embalando os momentos épicos de beijos em final de capítulo. Apresentou um estilo voltado em demasia ao disco dos anos 80, um tanto massante pra quem esperava algo mais groovado. Destaque para a interpretação de Tell Me Something Good, clássico da black music interpretado por diversos nomes de peso, como Maceo Parker.
A substituição de Prince por Jorge Ben pareceu aquela solução caseira emergencial e sem erro. A carta devia estar na manga desde o início, pra algum imprevisto. A quantidade de hits e toda sua história não podem causar outra reação no público que não o balançar incessante e frenético de corpos. Mas a impressão que fica, corroborada por muitos cariocas que já o assistiram em diversas oportunidades, é o modo automático na apresentação. Ele entra, não dá boa noite, sai tocando, cantando, fazendo todos pularem, conduz a banda (com maestria, diga-se). Por vezes parece irritado, de saco cheio, fazendo aquilo pela grana. Sem sorrisos; “salve apatia”. A participação do ex-baterista do Living Colour, Will Calhoun, deu um peso bacana e fortaleceu o show. Curiosa foi a relação do Jorge Ben com os técnicos do festival, um tanto quanto abobalhados no evento. Repetidas vezes ele deixou claro estar com problemas técnicos no monitor. Não tinha retorno; e sua voz realmente saía fraca. Os técnicos nada faziam diante dos apelos do músico, e pareciam mais preocupados em tirar fotos com o baterista convidado do que atender suas solicitações. Houve certa demora, mas a caixa foi trocada, junto com o microfone. Depois, ao estender uma guitarra, num intervalo entre músicas, prestes a cumprimentar o convidado e voltar pra reiniciar o show, o técnico a segurou… e ficou estancado no palco. Quando se deu conta, partiu pra buscar o outro instrumento da vez, errando na escolha e causando impaciência em Jorge Ben, que franzia a testa e dizia: “Não, não!”. Além, é claro, de um técnico que se meteu a tocar percussão, a convite do próprio Jorge Ben. Outra presença especial foi a de Caetano Veloso, causando furor na platéia.

O terceiro dia também reservava belos momentos. Com ASA, Aloe Blacc e Seu Jorge + Almaz, o time era forte. Destes, somente os últimos não corresponderam. Mais pelo show não ter encaixado do que por qualquer coisa, pois fizeram um grande trabalho. Os músicos, oriundos da lendária Nação Zumbi, estraçalham qualquer instrumento. Seu Jorge estava doidaço! O destaque ficou com Aloe Blacc, o estadunidense que veio dar um pouco do seu gingado pros brasucas, e mandou ver! Abrindo o show com a introdução de I Need a Dollar, descabaçou até a virgem mais pueril ali presente quando emendou Hey Brother, outro sucesso seu. E manteve o público hipnotizado até o fim. Interagia com o público, impressionava, surpreendia. Esbanjou elegância (como toda a banda), ginga, e mostrava estar gostando do que fazia. Não saberia dizer se era simpatia, mas sorria; todos sorriam. Foi um dos únicos a caminhar pelas instalações da Leopoldina nos demais dias. Também assistiu ao show de Jorge Ben, fazendo caras reprovadoras sabe-se lá de quê (talvez dos problemas técnicos). Mas matou a pau, essa é a verdade. Representou o black de alma, de soul, de raiz. O funk safado mesmo, com movimentos erotizados ao ponto, sem extravagâncias e com a malícia extraída de James Brown e Marvin Gaye. Dançava, e bem, em todas as canções. Comandou versões de clássicos do reggae e do pop, misturando estilos e dando sua cara. E deu certo. Muito certo. Assumiu a figura de estrela do festival, com toda a certeza. E com justiça.

Qinho & os Caras no palco secundário

Nos intervalos dos shows principais rolavam apresentações num palco secundário, um palco compacto ao lado das plataformas, para atrações locais. Seu fim não coincidia com o reinício de atividade no palco principal, o que dava um ar dinâmico ao evento, criando um movimento interessante de público entre idas e vindas, sem aquele fluxo mecânico de massas. Destaque para a banda Paraphernália, do Rio mesmo, com um groove maneiríssimo e contagiante, sendo comparada pelo Ronaldo Pereira (produtor do Gerson King Combo, um dos amigos por quem pechamos lá) à nossa Funkalister, dado o nível de excelência. Contaram ainda com a presença de B-Negão, encorpando ainda mais o show. Qinho & os Caras, apesar do péssimo nome, mandou bem (antes da versão de “Faz parte do meu show”, mais chorosa que a original) e chamou a participação de Jards Macalé, ovacionado pelo público.

Antes de tudo isso, a abertura de atividades dava-se com debates e conferências, no mesmo palco principal. No primeiro dia o foco foi “Democratização, não-violência e mídias sociais”, com participação via satélite de Wael Ghonim, um dos líderes da revolta popular que derrubou o ditador egípcio Hosni Mubarak. O segundo dia teve Fernando Gabeira mediando debate sobre Ecologia, que contou também com Marina Silva. O último dia contemplou o “Futuro das Comunidades”. Todos temas importantes, atuais e relacionados com a cultura negra e africana. Muito bacana e válida a iniciativa, mas a percepção é de que os debates seriam mais bem aproveitados noutro local, noutro momento.

Livros e discos no vagão

Os vagões também reservavam atividades bacanas, como lojas de discos, CD’s e livros, e um projeto de palco onde qualquer cidadão podia se inscrever pra cantar ou tocar algum instrumento. A idéia da Petrobrás teve massiva adesão, com boa banda de apoio, bombando em alguns momentos. Além disso havia o Palco Circo, a grande tenda armada para fazer a festa ao final das noites, com participações de renomados DJ’s, transitando por diversas linhas da black music, fechando um mapa interessante no festival.

Fica a alegria pela presença no festival, além dos abraços dados nos amigos encontrados lá (PC Capoeira, Ronaldo Pereira, Peixinho, entre outros), dos belos papos, e de poder conferir de pertinho o que anda rolando pelo país. Mas também a sugestão de um olhar mais vinculado à cultura negra e sua história. Convidar novos nomes, como Aloe Blacc, sim, mas nunca esquecer de quem começou tudo isso e ainda está em atividade. Nomes do calibre de Gerson King Combo, Tony Tornado ou o próprio George Clinton (que esteve em São Paulo em outro festival, o Black na Cena) tem de estar numa seleção de tal nível. Sharon Jones, que também se apresentou na capital paulista, em junho, seria estupendo. Stevie Wonder ou Jamiroquai (atrações do Rock In Rio, em setembro), também. Todos nomes possíveis pra um evento de tal grandeza em local tão inspirador e com patrocínios pesados, talvez até justificando um ingresso oneroso como foi o desse ano.

E dia 29 de setembro tem Stevie Wonder e Jamiroquai no Rock In Rio. Aguardem!

Abraços e até logo!

 

Back2Black Festival: ajudando a ativar a cena da música negra no Brasil

– Porém, com baixa presença da comunidade negra –

Por Dr. Caiaffo

Caiaffo e ASA

Sistemas de som de primeira linha, distribuídos nos palcos principal e secundário, bem como na lona de circo armada para receber os DJ’s, amplificou o que pretendia ser uma mostra contemporânea senão do melhor, pelo menos de uma parcela representativa do que vem sendo a produção musical negra no Brasil e no mundo. E realmente foi uma mostra absolutamente digna: tanto no palco principal quanto no palco secundário, tivemos a oportunidade de ver ao vivo novamente ou de conhecer algumas atrações bastante bem selecionadas pela curadoria do festival. Por ordem de preferência, destaco no palco principal. ASA – pronuncia-se “asha” – apresentou um show fantástico de soul music; extremamente carismática, com uma linda voz e uma banda competentíssima, a francesa – filha de nigerianos, que atualmente reside em Lagos/Nigéria, desfilou prioritariamente as composições do seu excelente segundo álbum, chamado Beautiful Imperfection. Falaremos mais sobre ela em nova postagem, pois foi uma das únicas entre os artistas principais que circulou fora do ambiente ultra-restrito reservado aos artistas do palco principal, e honrando a tradição de Fela Kuti, que considera uma das suas principais influências, concedeu-nos uma entrevista não somente sobre sua música, mas também sobre a política nigeriana e mundial. Em seguida, destaque para a excelente performance do new soulman Aloe Blacc, que quase colocou a Leopoldina abaixo com composições prioritariamente de seu novo álbum, Good Things. Também acompanhado de uma banda fantástica, o californiano provou ao vivo o porquê de ser considerado um dos principais nomes da música negra na atualidade, homenageou Bob Marley num reggae super grooveado e foi às lágrimas no bis, ao homenagear sua terra natal numa versão linda de California Dreamin’. Destaque para I Need a Dollar, cantada em uníssono pelo público presente. Do Mali, a diva Oumou Sangaré fez um show fantástico, misturando instrumentos elétricos com instrumentos tradicionais africanos, apresentando um repertório que flerta tanto com os afrobeats quanto com as canções e ritmos mais tribais e locais. Impressionante a sessão percussiva que, contando somente com um músico nos tambores, parecia encher a casa com uma batida contagiante. Mesmo caso dos também malineses do Tinariwen, banda de tuaregs do norte do Saara: um tocador de tambor, adornado por instrumentos harmônicos de corda, preencheu a estação com batidas contagiantes, numa pegada mais étnica do que propriamente grooveada. Destaque também para o show da Macy Gray, que mostrou porque é diva e admirada por muitos dos que curtem a música black: um show bem animado e com a melhor sonoridade, espalhafatoso no ponto certo e que botou geral pra dançar. Jorge Ben fez o que sabe fazer há anos e não há o que dizer do repertório: poucos são os músicos nacionais que conseguem encadear sucessos como ele consegue, mantendo um pique dançante e uma atmosfera festiva. Destaque, neste show, para a longa participação de Will Calhoun, baterista do Living Colour, que subiu no palco e deu uma contribuição impagável no swing da banda.

Chaka Khan

Duas das atrações principais decepcionaram um pouco: a diva Chaka Khan e Seu Jorge & Almaz. Chaka Khan, na minha opinião, foi prejudicada pelo volume relativamente baixo para um lugar tão grande, ainda mais porque desfilou um repertório clássico de disco music. Ela merecia um ambiente mais esfumaçado e um som no talo, como o gênero disco me parece solicitar. O show me pareceu sem groove, sem pegada, e o público permaneceu mais frio do que eu esperava. Seu Jorge & Almaz também: embora o disco seja fantástico, me parece ter um formato mais intimista, cheio de efeitos e detalhes. Não deu muito certo no formato festival, embora deva ser uma das melhores coisas a se ver em palcos pequenos e fechados, ou mesmo em teatros. A fadista portuguesa Ana Moura, que Gilberto Gil tentou salvar, foi um convite definitivamente equivocado.

Não vou me estender sobre as atrações do palco secundário, mas vale sugerir que todos procurem informações sobre os trabalhos da banda Tono, de Domenico Lancelotti e de Moreno Veloso. No geral, porém, foi um palco onde circularam, em diferentes bandas, uma mesma geração de músicos cariocas na minha opinião mais identificados com a música popular brasileira do que com a música black, e por isso provavelmente pouco representativo em se tratando do que está sendo produzido de música negra no Brasil, atualmente. Nomes como Criolo e Emicida, por exemplo, e mesmo o nosso gaúcho Tonho Crocco teriam feito uma presença bem mais marcante e significativa. Passaram por ali B-Negão e Jards Macalé, atrações que mereceriam mais destaque do que como meros convidados. Isso num país que ainda tem Gérson King Combo, Hyldon, Bebeto, Banda Black Rio, Funk como Le Gusta e tantos outros na ativa… e uma nova geração produzindo afrobeat da melhor qualidade.

Caiaffo e DJ Marlboro

A lona de circo abrigava as festas, que começavam tão logo o último show da noite terminava no palco principal. E o bicho pegou: Nepal junto com Pathy de Jesus, DJ Cia, DJ Marlboro e os DJs do Baile Charm do viaduto de Madureira literalmente tocaram fogo no circo, do soul ao funk carioca, passando pelo hip-hop e pela disco music, sempre com repertórios invejáveis e mixagens competentíssimas. Com a ajuda da cervejinha, destilamos muito suor junto com o povo que prestigiou a lona. Charles Gavin também fez uma selecta super competente de música preta brasileira, mas não animou muito por conta da presença ainda baixa de público quando fez seu set. Perdemos o segundo dia da lona porque fomos convidados por mestre Peixinho a estar no camarote de um dos patrocinadores do evento junto com PC Capoeira e a Velha Guarda do Soul, e a birita 100% liberada… desculpem, mas a gente também é filho de Deus. Aguardem que, depois destes dias na lona do circo, muita coisa boa pode cair pra Porto Alegre!

Fora isso, belos encontros: cruzamos com o pessoal da Abayomy Afrobeat Orchestra, da Stereo Maracanã, da Supergroove, com DJ’s da Soul, Baby, Soul!, da Makula e da Blax, com a Velha Guarda do Soul e outros tantos amigos e amigas, novos ou de datas. Conhecemos o pessoal do Baile Charm de Madureira e entrevistamos um de seus frequentadores mais antigos, verdadeira aula sobre o baile e o estilo no Rio. Bem bacana.

O festival tinha também uma dimensão mais cultural, e propôs debates no início da programação de todos os três dias. As discussões foram interessantes – considerações e análises sobre os conflitos no norte da África, formas de resistência na atualidade, mídias sociais, ecologia e tantos outros temas atuais foram abordados por nomes representativos da cultura nacional e internacional –, mas confesso que o ambiente era inadequado, a falta de tradução simultânea deve ter prejudicado muita gente, assim como o valor dos ingressos. Valeu a intenção, mas a sugestão é de que as discussões sejam ampliadas e realizadas em outro ambiente, gratuitamente, fora do horário reservado aos shows e às festas e com mais possibilidade de participação ativa do público.

A única, porém grande, crítica que faço ao festival diz respeito à baixíssima presença da comunidade negra, que é considerável não somente no Rio de Janeiro, mas também no Brasil. No geral, os negros estavam uniformizados, ou seja, a trabalho. Conversando com amigos e amigas da cidade, eles relataram um movimento grande de repúdio ao valor cobrado pelos ingressos, e acreditam que este foi o fator que marcou esta divisão social entre frequentadores do Back2Black e a comunidade negra local. Fica a sugestão: que tal operar valores mais baixos nos próximos, e assim tentar promover uma integração real, ou – alternativamente – promover ações e shows descentralizados pela grande área de subúrbios e periferias do Rio de Janeiro e de sua região metropolitana?

No geral, valeu muito. Um festival muito bacana que ajuda a ativar a cena da música negra no Brasil, com curadoria interessante, bem produzido, instrutivo e divertido. Creio que qualquer crítica venha no sentido de contribuir com a continuidade da idéia, e não de desqualificá-la total ou parcialmente. Espero poder voltar ao Rio de Janeiro no próximo, ano que vem, e que algumas das distorções que ficaram tão evidentes possam ser corrigidas para o bem do evento e pela integração real de todas as raças no entorno do contexto de produção cultural e política que envolve o problema da negritude no Brasil. E aconselho que vocês, nos limites do possível, venham com a gente!!!

Arrisco uma sugestão de atrações para palcos principal e secundário:

Palco principal:

(Dia 1) Saravah Soul, Seun Kuti & Egypt ’80 e Ebo Taylor.
(Dia 2) Racionais MC’s, M.I.A. e Jay Z.
(Dia 3) Gérson King Combo, Hyldon e Toni Tornado, Charles Bradley e Spanky Wilson.

Palco secundário:

(Dia 1) Abayomy Afrobeat Orchestra, Bixiga ’70 e Tonho Crocco & Partenon ’70.
(Dia 2) B Negão, Emicida e Criolo.
(Dia 3) Funkalister, Supergroove e Funk como Le Gusta (com Paula Lima).

De resto, sigo passando informações aos poucos pra vocês e, tão logo seja possível, o resultado das entrevistas que fizemos durante o evento. Acompanhe o blog da Equipe VooDoo, envie suas sugestões de pauta e também suas contribuições sobre o que a gente publica aqui através de nosso e-mail!!

Meu forte abraço.

 

VooDoo no Back2Black Festival (RJ)

Nos dias 26, 27 e 28 de agosto realizou-se, no Rio de Janeiro, a terceira edição do Back2Black, festival dedicado à música e à cultura negra. Junto com o BMW Jazz Festival, a noite black da Virada Cultural de São Paulo e o festival Black na Cena, formou o que parece ser a agenda de grandes eventos do gênero no Brasil neste ano de 2011. Ainda aguardamos as atrações de groove do Rock In Rio, no dia 29 de setembro, mas tendo prestigiado no todo ou em parte todos os demais, podemos dizer que foi um ano de luxo em terras brasileiras.

Grandes patrocinadores, grandes atrações, nomes de peso… Por outro lado, ingressos com valores bastante apimentados. O cenário: a antiga estação férrea Leopoldina, agora dedicada a eventos culturais de tal dimensão. E começamos por aí, a Leopoldina: dentre os inúmeros locais que a cidade do Rio de Janeiro dispõe para a realização de eventos deste porte, definitivamente a Leopoldina é um dos mais bacanas. O antigo prédio da estação, estendido no fundo através das antigas plataformas de embarque e desembarque, onde ainda hoje ficam estacionadas composições que já rodaram pelos inúmeros trilhos que ligavam a capital a municípios da região metropolitana, do Estado e do país, é um espetáculo singular. Os inúmeros eventos já realizados, e também as intervenções espontâneas nos trens, hoje em dia quase completamente grafitados, fazem com que a Leopoldina seja não somente um verdadeiro museu do transporte ferroviário carioca, mas uma grande mostra da arte de rua já produzida naquelas terras. Estivesse a estação mais bem conservada como patrimônio local e certamente ela poderia ser considerada como um dos lugares mais impressionantes para eventos do gênero no país. Fica a dica para os administradores e organizadores da cultura em solo nacional. A cenografia, composta em grande parte por intervenções d’Os Gêmeos, também merece destaque pelo cuidado e criatividade.

No todo, o festival – que também contemplou o dia 30, em São Paulo – foi muito bom. Afora problemas, sejam de ordem técnica ou de produção, além dos preços absurdos cobrados e da desistência surpresa e ainda sem explicação da maior atração, Prince, o saldo é positivo.

A VooDoo esteve lá, e Oster e Dr Caiaffo detalharão o evento aqui pro blog e também pra IpanemaFM (nossos eficientes emissores), no NBlog.

As fotos são do Rafa Rubim.

Ritual VooDoo Radioativo #22

VooDoo RADIOATIVA

O processo é mais ou menos assim: quando os núcleos se transformam através de fissões e/ou fusões nucleares, derivando em novas composições e elementos, sua massa se transforma e libera uma quantidade imensa de energia. O que temos, então, não é nada mais nada menos do que uma reação em cadeia cujas proporções são difíceis de controlar: é quando as nuvens e ondas liberam aquela radioatividade que tudo alimenta, ou que tudo contamina e toma, sem exceções.

Ah, pois é! A próxima VooDoo tem a alegria de receber um sujeito radioativo cujo objetivo último é bombardear e contaminar as pistas e palcos por onde passa: daremos boas vindas a Fred Chernobyl em nosso ritual mensal.

Fundador da Comunidade Nin-Jitsu, músico, DJ e produtor musical, Chernobyl tem amplos conhecimentos e longa trajetória nas questões nucleares: premiado internacionalmente por seus remixes, já tem mais de 100 faixas lançadas mundo afora e prestou serviços de bombardeio em pistas e palcos de mais de 12 países, do Brasil ao Japão, passando pela Rússia, Suécia e Alemanha, entre tantos outros.

Entre as inúmeras façanhas de um currículo fantástico, consta que já dividiu uma noite de som com o próprio Afrika Bambaataa, pai de todos. Seus sets são um passeio dançante pelo Hip-Hop Old School, pelo Miami Bass e pela música black de raiz.

O residente J. Oster segura o rojão antes e depois, fazendo as honras da casa!

Venha conosco em mais um ritual.

Esse vai ser bombástico!


SERVIÇO

Ritual VooDoo Radioativo #22
residente J. Oster

Convidado: Fredi Chernobyl
Quando: 11/09, domingo, 21h
Local: Cabaret!, Independência nº 590
Quanto: $20 na hora; $15 até 23h com nome na lista pelo site do Cabaret!, e-mail festavoodoo@gmail.com ou mural do evento no Facebook

: : Dose dupla de Polar até 23h : :


PROMOÇÃO

Pra concorrer a convites pro nosso ritual basta seguir a Festa VooDoo no Twitter (@festavoodoo) ou no Facebook (Festa VooDoo) e postar o seguinte texto: ”A @festavoodoo edição radioativa rola no domingo, 11/09, às 21h, no @cabaret_! http://kingo.to/NYQ

A arte do mês foi obra do Guilherme Krolow.